O mundo direto

O primeiro filme que assisti na sala escura foi ET O extraterrestre, de Steven Spielberg no final de 1982, quando tinha apenas 4 anos. Hoje, mais de 40 anos depois, posso afirmar que a magia do cinema me fez fazer xixi nas calças, na ocasião da estréia, mais do que por medo, mas de emoção. A experiência do som e imagem em movimento foi tão avassaladora que, mesmo em tempos de streaming, sigo tendo a sala escura como refúgio para uma conexão com outros mundos, personagens e histórias que não só me emocionam, mas me transformam.
Hoje comecei o ano em família, talvez como muitas outras ao redor do mundo, assistindo ao tão aguardado episódio final da série Stranger Things que, sim, é uma ode ao cinema e aos anos 80 e isso por si só já capturou minha atenção, além de instalar uma conexão especial com minha filha de 13 anos, apaixonada pela série, seus efeitos e personagens. A série é uma profunda homenagem aos anos da minha infância com sua cultura pop, estética e trilha sonora regada a ícones como Bowie, The Clash e Queen.
A cada temporada uma atmosfera de mistério de clássicos de Steven Spielberg e Stephen King foi recriada, através não só de figurinos, cenários, trilha sonora e referências diretas a ícones como E.T., Os Goonies e Os Caça-Fantasmas, construindo uma magia nostálgica ao colocar, inclusive, atrizes como a minha preferida Winona Ryder ou Maya Hawke ( filha de Ethan Hawke e Uma Thurman) no centro das cenas.
As cinco temporadas atravessaram a última década fechando e abrindo portais, mas acima de tudo unindo gerações. Porém, o sucesso global de Stranger Things não foi somente pelas referências aos anos 80, seus efeitos especiais ou controversos monstros, mas sim porque ela escancarou as dores emocionais , traumas e vulnerabilidades de crianças, jovens e adultos nos fazendo repensar o que nos torna humanos.
O diverso grupo de amigos da Hawkins High School cresceu junto com a série e fez com que os espectadores se identificassem com Will, Mike,Lucas, Dustin, Max, Jonathan, Joyce, Hopper, Nancy, Eleven, Steve ou Robin que lutaram com seus fantasmas internos reais para combater os monstros do mundo invertido. E isso nos emocionou, amedrontou e nos conectou. As suas dores, desafios e luta por sobrevivência são as nossas, também.
Stranger Things chegou ao fim e o ano começou numa emoção pelo choro compartilhado que não é só já saudade dos personagens que tanto amamos, mas a certeza que a amizade e a diversidade dão lugar a inventividade e a transformação do mundo num lugar mais solidário. Nossos Demogorgons só serão superados quando integrarmos medos e coragens. Um novo mundo é possível. Eu acredito.
Agora corre para o Netflix, pois a série é imperdível.